“É impossível viver da arte em Portugal”

Written by  //  12 de Novembro de 2012  //  Dez.Conversas  //  No comments

Trepa Rita Pereira tem 27 anos, é artista plástica em Portugal e diz que é impossível viver apenas da arte no país: não se vende e não se consegue investir. Ainda assim, defende que inovar cá dentro pode ser uma das soluções para vencer a crise.

É licenciada em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e tem Mestrado em Design de Cena pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Hoje, para sobreviver, vai dobrando roupa em algumas lojas e fazendo alguns trabalhos de stencil (técnica utilizada para aplicar desenhos ou fotografias em tela através da utilização de tinta, com corte ou perfuração em papel ou acetato) por encomenda. Sabe que não se consegue viver da arte em Portugal, mas não quer abandonar o seu país.

DezInteressante (Dez): É fácil viver só da arte em Portugal?
Trepa Rita Pereira (TRP): Não. É impossível viver da arte em Portugal, pelo menos para quem começa. Talvez uma Joana Vasconcelos consiga viver, mas aquilo é mais uma marca do que um artista. Viver de artes plásticas é muito complicado para quem começa agora. Não se vende, não se pode investir também em materiais para construir e criar.

Dez: Quanto ganha, por mês, através dos teus trabalhos artísticos?
TRP: Não tenho vendido. O stencil é o que me faz, de vez em quando, ter algum dinheiro. Obras vendidas contam-se pelos dedos. Sou monitora de artes plásticas em duas escolas primárias e é o que me faz ter dinheiro, mas mesmo assim não é muito.

Dez: Tem trabalhado só a fazer o que gosta?
TRP:A crise tem-me obrigado a trabalhar noutras coisas. Já andei a dobrar roupa em lojas. Tenho feito outras coisas e nem me dou a muitos luxos porque não posso.

Dez: Como é trabalhar com crianças?
TRP: É muito divertido. É óptimo ensinar pessoas, formar e vê-los a crescer com aquilo.

Dez: A formação é importante ou basta ter jeito?
TRP: O importante é ter um currículo e um portfólio como deve ser. A formação é importante para mostrares a alguém que tens um curso mas, de certa forma, há pessoas que conseguem chegar a certos níveis sem ter de andar em belas artes ou alguma coisa do género.

Dez: Já vendeu trabalhos para fora do país?
TRP: Tinha uns trabalhos expostos num bar do bairro alto e um quadro foi comprado por um estrangeiro, mas não sei para onde foi.

Dez: Já considerou a hipótese de emigrar?
TRP: É inevitável pensarmos nisso hoje em dia, mas não queria sair daqui, ter de abandonar o meu país e as coisas de que gosto porque alguém estragou isto tudo. A solução é inovar cá dentro, tentar arranjar saídas melhores nem que se passe uns anos a dobrar roupa numa loja ou a servir pessoas no café.

Dez: Se tivesse de mudar de país, para onde iria?
TRP: Berlim, Alemanha. Por causa da arte urbana, principalmente. É uma das áreas em que me estou a ligar mais. Tenho umas coisas do galo de Barcelos em que faço símbolos portugueses para interligar com a arte urbana.

Dez: O Estado tem cortado muito na cultura. Qual é a sua opinião?
TRP: Em relação ao que o Estado faz acho absolutamente ridículo. O que vejo hoje em dia é que em concertos, principalmente, as pessoas investem. As salas estão cheias. As pessoas precisam realmente de alguma coisa que as faça esquecer o trabalho. Não se importam de ficar um mês sem ir jantar fora e preferem ouvir uma banda. Agora, a nível de artes plásticas, nunca se investiu muito.

Dez: Essa realidade pode mudar?
TRP: Para já não vejo mudança nenhuma.

About the Author

Cátia Carmo

Praticante assídua de vários tipos de desporto e amante da escrita, desde os meus 11 anos que decidi lutar para conjugar, profissionalmente, estas minhas duas paixões através de uma só: o jornalismo. Agora estudante de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa vejo, aos poucos, o sonho a tornar-se realidade.

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