Editorial: FEEF ou FMI, que diferenças?

Written by  //  3 de Abril de 2011  //  Editorial  //  No comments

Cavaco Silva diz aos jornalistas que não devem falar de ajuda do FMI, mas sim do FEEF, Fundo Europeu de Estabilização Financeira. O Presidente da República considera que dizer o contrário é errado. A questão é perceber porquê.

É preciso que os políticos falem claro. Os portugueses exigem que a classe que dirige o futuro do país fale olhos nos olhos de quem os elege e parece que isso é cada vez mais difícil. Cavaco Silva prometeu contenção, mas neste fim-de-semana não respondeu aos jornalistas, deixou apenas uma rectificação: não devem escrever “FMI”, mas sim “FEEF”.

O problema é que se ficou por aqui: não explicou a razão, virou as costas. O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, o tal FEEF, é um mecanismo desenvolvido pela União Europeia para garantir ajuda aos países que precisarem de auxílio. É como se fosse um cofre com dinheiro onde os países que não conseguem financiamento nos mercados, ou seja, não conseguem pedir dinheiro emprestado, podem tirar parte das verbas, pagando um juro fixo.

Mas o cofre não tem só contribuições europeias: parte é da responsabilidade do Fundo Monetário Internacional. Os problemas gregos abriram o precedente e levaram à criação do mecanismo. A Irlanda recorreu a esta ajuda. Para conseguirem o empréstimo, ambos os países tiverem de levar a cabo reformas muito duras, medidas indicadas pelo FMI. Mais: Christine Lagard, ministra das finanças francesa, já garantiu que nenhum país vai ter a possibilidade de recorrer ao fundo sem passar pelo crivo do FMI.

Na prática, para aceder-se ao fundo é preciso e obrigatório que o Fundo Monetário Internacional aprove um conjunto de medidas estruturais. Por isso, não parece ser descabido dizer que recorrer ao fundo europeu será, na prática, recorrer ao FMI.

Estas palavras do Presidente da República podem ter uma outra leitura: o Expresso avançou a notícia de que Cavaco Silva, PSD e CDS estavam a preparar um pedido de ajuda ao FMI sem passar pelos parceiros europeus. Esta podia ser uma forma do Chefe de Estado desmentir a manchete. Mas se assim era, não merecia o povo saber que essa não é uma hipótese? Quando se exige clareza, não seria positivo para todos se houvesse uma linguagem transparente? . Leia-se “positivo para todos”, positivo para os portugueses, excluindo os interesses dos partidos políticos.

About the Author

Diogo Carreira

Sempre sem juízo, numa luta constante pela liberdade de imprensa e de expressão. Jornalista profissional desde 2008, mas com o bichinho da escrita e da imagem desde os gloriosos anos da primária. O gravador em mini K7 transformou-se num iPhone, a máquina fotográfica de rolo é agora uma digital. O papel e caneta? Esses são os mesmos.

View all posts by

Leave a Comment

comm comm comm